Fordlândia: a Amazônia americana

"Para escapar do monopólio inglês sobre a produção de látex, Henry Ford instalou uma filial da Companhia Ford às margens do rio Tapajós".

Os barcos não são o único meio de se atingir Fordlândia, mas é o melhor. É com eles que entram e saem mercadorias: gasolina, tracajás, galinhas, pneus, televisores, aparelhos de som, macarrão, pasta de dentes, chiclete e gente. Chegam ao amanhecer e partem à noite.

A vila de Fordlândia, localizada a cerca de 120 quilômetros de Santarém, na Amazônia paraense, faz parte do sonho modernista de Henry Ford – o homem que fez o mundo girar sobre quatro rodas, o criador do automóvel como bem de consumo. Mas o que levou a Companhia Ford, instalada na gélida e industrializada Detroit, região dos Grandes Lagos nos Estados Unidos, a planejar uma “filial” às margens do equatorial rio Tapajós, em plena selva Amazônica há quase 80 anos?
A resposta é simples. Nos anos 1920, a Ford tentava escapar do monopólio que os ingleses exerciam sobre a produção de látex. O produto era matéria-prima valiosa para a efervescente indústria automobilística: com ela, fabricavam-se pneus e diversas autopeças.
Em 1927, depois de ter em mãos informações sobre a qualidade da borracha da Amazônia, Henry Ford tratou de comprar, na região de Boa Vista, um belo naco de terra, com cerca de 1 milhão de hectares, às margens do Tapajós. O valor: 127 mil dólares.
No ano seguinte, dois navios – Lake Ormoc e Lake Farge – aportavam na floresta carregados de todo o material necessário para a instalação da maior plantação de seringueiras do mundo. Não demorou para que Boa Vista fosse rebatizada como Fordlândia. Quanto à empresa americana, chegava à selva com o nome de Companhia Ford Industrial do Brasil.
Muito pouco se comenta sobre esse curioso episódio das primeiras décadas do século 20 na Amazônia. Por ser um estudioso da influência americana no Brasil, fui convidado pela revista National Geographic para visitar – acompanhado do fotógrafo Ricardo Beliel – as cidades “americanizadas” nesses trechos da floresta.

Em Santarém, tivemos o primeiro contato com a magnitude da empreitada americana. No Instituto Cultural Boanerges Sena, assistimos a um breve documentário sobre aquela época. As imagens contam o início da história que buscávamos: tratores derrubando árvores colossais, serras cortando tábuas, caldeiras movendo turbinas de geradores de energia, ruas, estradas e casas de alvenaria surgindo no meio da mata. É o retrato do dinamismo industrial – transportado para a floresta fechada.
O projeto, no entanto, não vingou. Assim, em 1934, a companhia americana faria nova tentativa: dessa vez, na região de Belterra, cidade mais próxima de Santarém. Ao todo, o sonho da Ford nessas paragens durou até dezembro de 1945.
Para o longo trajeto de 12 horas de barco entre Santarém e as antigas instalações da Ford, cruzando as águas verdes do Tapajós, tomei certas providências.
Precisava de uma rede, de uns 2 metros de corda e de um chapéu. O chapéu, obviamente, para proteger a calva do forte sol equatorial; a corda, para amarrar a rede na embarcação. “Uma das belas características do Tapajós são as nuances de cor que apresenta durante os dias e as noites. Algumas vezes ele tem a cor de esmeralda; outras, a de chumbo; outras, o dourado – como se caprichasse para nos extasiar com sua beleza...”
Quem descreve o rio com tal poesia é um filho dessas matas, Eimar Franco, autor do livro O Tapajós Que Eu Vi. Franco nasceu em Urucurituba, na margem oposta a Fordlândia, em 1921. Testemunhou toda a implantação do projeto americano por ali.

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